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Mais que o homem, a figura está no inconsciente coletivo brasileiro. Francisco Cândido Xavier, ou simplesmente Chico, foi o grande nome do espiritismo no Brasil, escreveu centenas de livros psicografados de ilustres desconhecidos ou de autores como Humberto de Campos e Augusto dos Anjos e deixou mensagens que até hoje pululam entre as pessoas. É um verdadeiro personagem da História do Brasil. Sua biografia, então, era apenas uma questão de tempo para chegar aos cinemas.

Chico Xavier (Idem, Brasil, 2010), mais novo blockbuster de Daniel Filho, tem entre suas qualidades, saber não desmistificar a personalidade sem se esquecer do homem. É bem verdade que em muitos momentos Chico é tomado como santo, mas sua história de vida, dramas e alegrias, é tratada como a de qualquer outro mortal. Com um detalhe: sua sabedoria é passada sem aqueles diálogos impactantes que biografados costumam dizer nos filmes, a exemplo do que aconteceu com Cazuza, que tinha sempre poesia a dizer, mesmo nas conversas mais triviais.

E a produção vai além. O roteiro abusa dos flashbacks ao guiar a história de Chico através da clássica entrevista no programa Pinga-Fogo, da TV Tupi, nos anos de 1970, pincelando momentos de sua vida através de partes dessa sabatina - que durou mais de três horas. E se a ótima montagem tem um defeito, é a falta de criatividade nessas transições entre TV e vida real, feita apenas com um close na tela em preto e branco. Mesmo indo e vindo no tempo, o roteirista Marcos Bernstein (de Central do Brasil) não se perde e constrói um personagem muito sólido. De criança que fala com espíritos com naturalidade, mas sofre com a intolerância dos vivos – e chega a pensar que é louco -, ao adulto ciente da missão a ser cumprida, Chico nunca se transforma num ser criado apenas para as telas. Fora a inteligência de Bernstein em dar desfecho ao arco narrativo na história do casal vivido por Tony Ramos e Christiane Torloni, algo feito sem qualquer alarde e que evita o óbvio fim na morte de Chico Xavier.

Por falar em Ramos e Christiane, o elenco do filme é de se aplaudir de pé. Além do casal – em papéis difíceis, exigidos muito na sutileza -, os intérpretes de Chico são destaque. Quando criança, a missão é encarregada a Matheus Costa, incrivelmente natural, com sotaque mineiro e tudo. O peso de seu dom – ou maldição para alguns -, ele coloca não só nas expressões de tristeza, como também naqueles maneirismos de criança quando descobrem que algo só seu é descoberto.

No segundo Francisco que interpreta nos cinemas, Ângelo Antônio é quem tem maior tempo em cena e a missão mais difícil: adulto, é quando Chico passa a psicografar e a ser tomado como homem santo. A tranquilidade ao interpretar o médium e a competência em flexionar as falas, mantém em alto nível a composição, fechada com o trabalho de primeira de Nelson Xavier. Além da incrível semelhança com o Chico real, ele é responsável pelo momento mais engraçado da película, quando viaja de avião para a participação em Pinga-Fogo.

Diretor que não costuma mostrar grande riqueza de composição, Daniel Filho repete o bom trabalho de Tempos de Paz, cria belos planos e é feliz ao ousar em alguns momentos – sutilmente o diretor não evita nem o que muitos chamavam de pequenos shows nas sessões do religioso. É exemplar nas cenas de psicografia, algo que poderia facilmente ter um resultado cômico involuntário – principalmente se levado em conta como a mão na testa e o lápis frenético se tornou um estereótipo.

Emocionante em vários momentos, Chico Xavier vem faturando alto nas bilheterias do país. É claro que o sucesso era esperado, a identificação dos brasileiros com o mito ultrapassa a barreira da religião e o bom trabalho da produção, da direção de arte à maquiagem, dão a Daniel Filho uma legitimidade muito maior de ser o “diretor das multidões” do que com besteirinhas como Se Eu Fosse Você (1 e 2) ou Muito Gelo e Dois Dedos D’Água.

Nota: 8,5

Resumo da Semana

As Crônicas de Nárnia - O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupas (The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe, 2005). De Andrew Adamson

Ao contrário da fantasia adulta de O Senhor dos Anéis, Andrew Adamson apostou na aventura infanto-juvenil e se saiu muito bem. Não tem a relevância da adaptação de Peter Jackson, mas está longe da pobreza de outras fantasias cinematográficas vindas da Literatura. Esse primeiro As Crônicas de Nárnia tem na doçura a grande arma, contando com um roteiro adequado para sua proposta e atores bem escalados. Destaca-se a pequena Georgie Henley, então com 10 anos, como Lúcia Pevensie, e sua dinâmica com James McAvoy, o fauno Tumnus. Além de Tilda Swinton, excelente na pele de vilã. Apesar de pueril demais em determinados momentos, emociona em muitos outros e deixa a dúvida de como a continuação, O Príncipe Caspian, desandou de tal maneira para todos: de atores à direção. Nota: 8

A Onda* (Die Welle, 2008). De Dennis Gansel

O caso real acontecido nos Estados Unidos, em 1967, aqui é levado para a Alemanha e elevado a um estudo social interessante de culpa e de como a história se repete. A trama é das mais atrativas: jovens estudam autocracia e são impelidos pelo professor a criar uma dentro de sala de aula, depois do questionamento de um dos estudantes de que na Alemanha de hoje haveria conhecimento e traumas demais para que isso voltasse a acontecer. Em pouco tempo garotos e garotas terão códigos próprios, inimigos em comum, união radical e intolerância. Algo que vai extrapolar a sala, chegar a atos de vandalismo e a perda de controle do professor, então Führer da turma. A Onda é ágil, tem edição moderna e corajoso ao mostrar até onde toda aquela loucura pode ir. Peca por ser caricato em alguns pontos, como na figura do aluno que logo aceita as ideias totalitárias do professor. Entretanto merece ser visto, revisto e posto no currículo de qualquer disciplina de História. Nota: 8,5

* Filme visto pela primeira vez

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