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Crítica: Guerra ao Terror

Antes de dizer qualquer coisa a respeito de Guerra ao Terror (The Hurt Locker, EUA, 2009) é preciso deixar claro: mesmo sendo um grande filme, é improvável que recebesse tantos prêmios caso fosse produzido três ou quatro anos depois do fim da Guerra do Iraque. É o filme certo, para a hora certa.

 

É mais ou menos o que aconteceu com os longas de guerra que tinham consciência na década de 1970, período que criou pelo menos um clássico inquestionável sobre a Guerra do Vietnã, Apocalypse Now. Mas Guerra ao Terror dificilmente se tornaria um Platoon, por exemplo, lançado em 1986, mais de uma década depois do fim do conflito e que mesmo assim tocou os americanos.

 

Pondo esse fato de lado, é possível tirar qualquer falsa expectativa sobre a película de Kathryn Bigelow. Sem o ranço de ‘filme do Oscar’ é possível entender melhor que a diretora trabalha focada em seus personagens e na pesada carga que carregam em solo iraquiano. Não adianta ficar floreando, Guerra ao Terror é direto: se você está no deserto para lutar terá de ser forte e mesmo assim sofrerá danos terríveis. Físicos ou mentais.

Para ilustrar a tensão absurda nos ombros dos soldados ela é radical, dá logo à platéia a visão do esquadrão especializado em desarmar bombas. Se o cargo em si já exige muito num ambiente controlado, imagine numa terra onde você não é bem-vindo e qualquer um pode ser uma ameaça a mais, como se a bomba na sua cara já não fosse suficientemente perigosa. O roteirista Mark Boal, em tom quase episódico, mina a força do espectador ao não dar rosto ao inimigo. Nos primeiros minutos ele deixa claro que qualquer pessoa ao redor das ações – qualquer um mesmo –, com um rádio, uma câmera ou um celular pode significar a morte. Tensão é a palavra que melhor define esses momentos.

 

E da mesma forma que quem assiste a Guerra ao Terror chega ao final da sessão cansado, os personagens vão se esfacelando psicologicamente. A conclusão que se tira é que sua face humana, uma vez dentro do conflito, simplesmente se perde – ou terá que ser perdida. Não à toa protagonista, o Sgt. William James (Jeremy Renner), à primeira vista um irresponsável, ganha nossa simpatia e pena ao percebermos que suas ações são reflexos do meio e não de sua consciência.

 

Nota: 8,5

Resumo da Semana

 Conflitos Internos* (Mou gaan dou/Infernal Affairs, 2002). De Wai-keung Lau e Alan Mak

O longa que seria refilmado nos Estados Unidos por Martin Scorsese como Os Infiltrados é uma aula de drama policial. Primeiro porque parte de um argumento que qualquer roterista poderia dizer: "como não pensei nisso antes?". Policial se infiltra entre gângsters e bandido se infiltra no departamento de polícia. O conflito nunca é direto, o que gera um jogo de sabotagens mútuas, enquanto tenta-se descobrir quem é o rato dentro de ambos os grupos e o drama de quem já não sabe mais de que lado da Lei está. Com roteiro inteligente e enxuto, Wai-keung Lau e Alan Mak pontuam sua direção de forma econômica e criam tensão parecida com a que Michael Mann conseguiu em Fogo Contra Fogo. Conflitos Internos ainda guarda um final mau, corajoso e surpreendente. Nota: 8,5

 Os Infiltrados (The Departed, 2006). De Martin Scorsese

Scorsese não entraria numa refilmagem qualquer e em Os Infiltrados ele demonstra o porquê. Apesar de utilizar os melhores momentos da trama de Conflitos Internos sem muitas mundanças, aqui o drama tem mais espaço e os personagens ganham mais tempo em foco. O cineasta ainda faz uma ótima ambientação dentro da máfia irlandesa de Boston, o que dá o toque pessoal dele - além da violencia característica. No restante não se pode dizer que Martin fez um dos seus filmes mais originais, pois o roteiro do longa de Hong Kong é muito presente e o desfecho é um tanto covarde, ao não negar à platéia um tipo de final feliz. Isso não é cara de Scorsese. Enfim, Os Infiltrados é um grande filme, com atores em perfeita sintonia e todos muito bem, no entanto fica aquém do original Conflitos Internos. Nota: 8

* Filme visto pela primeira vez

Comentários de Última Hora: o que irrita mesmo é que Scorsese tenha levado o Oscar por uma de suas obras menores se comparado a longas com Touro Indomável ou Os Bons Companheiros.

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