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Crítica: Besouro

A discussão sobre a “evolução” do cinema brasileiro só pode ser vista de uma maneira: puro preconceito. O Brasil sempre produziu bons longas, em qualquer época. É que o brasileiro se acostumou a associar o filme nacional às pornochanchadas, muito comuns na década de 1980, saídas da antiga Boca do Lixo quando esta estava em decadência. Se de alguns anos para cá as produções verde-amarelas começaram a ganhar destaque é por que o país passou a produzir mais. É simples: tentar mais, quer dizer acertar mais.

 

“Mas antigamente filme nacional era muito tosco...”. OK, é uma opinião. Entretanto, se agora há tecnologia e incentivo financeiro, basta passar a mão em meia dúzia de bons computadores e entregar a profissionais que a coisa sai. Não existe “evolução”, existe condição favorável.

 

Pois esse papo de que a Sétima Arte no Brasil “evoluiu” foi testado com Besouro (Idem, Brasil, 2009). O trailer do filme era primoroso, bem editado e prometia ser O Tigre e o Dragão capoeirista. Porém, o longa é a prova de que técnica pela técnica não serve de muleta para levar alguém até muito longe.

 

Falta estofo à biografia de uma verdadeira lenda da capoeira, Manuel Henrique Pereira, o Besouro. Ele cresceu na virada dos séculos XIX e XX, no Recôncavo Baiano. Para a história ficou não só sua arte, mas também muitas lendas a seu respeito. Ele supostamente podia voar, se transformava em elementos da natureza, etc. Um ótimo ponto de partida para a fantasia de João Daniel Tikhomiroff, premiado diretor de comerciais.

Essa veia moderna que o cineasta traz da publicidade é a responsável pelo melhor de Besouro, câmera ágil, enquadramentos inventivos e montagem milimétrica. Foi daí que muita gente ficou inebriada com a precisão das imagens vistas no trailer. Mas quando o elemento humano tem de tomar a rédea do filme, Tikhomiroff fica pobre de recursos.

Começando pelo seu protagonista. Em momento algum Aílton Carmo consegue dar profundidade ao personagem-título. Calado na maior parte do tempo, Besouro exigiria um ator de muito maior expressividade e, ao mesmo tempo, minimalista. Da forma que é apresentado, o herói não tem empatia, se torna apenas alguém com grandes habilidades que luta pelos seus, porém não se justifica por completo. Mesmo ao lado de atores apenas corretos, Aílton é jogado para segundo plano e faz a platéia esperar pelas cenas de ação. E estas, sinceramente, não são nenhum exemplo de empolgação.

 

Já o roteiro, além de apressado, é confuso. Em dois terços da história, Manuel se prepara para bater de frente com o Coronel da região. Procura na natureza e no misticismo suas armas para o combate, contudo fica o desafio: enquanto ele está na mata há um quê de suspensão do tempo, como inserir esses momentos de maneira fluída enquanto o resto dos personagens seguem suas vidas? Pois bem, nem a roteirista Patrícia Andrade, nem Tikhomiroff conseguiram superar essa barreira. No melhor estilo muito barulho por (quase) nada ele se prepara, testa uma artimanha aqui, se prepara, treina outra técnica ali, se prepara e quando vai para o confronto final, o inimigo já está até com as barbas de molho.

 

Com os créditos subindo vem a frustração.

 

Comparado a O Tigre e o Dragão, o brasileiro fica ainda menor, uma vez que a produção de Taiwan tinha não só punhos, mas também coração – além da técnica que a a Ásia vem exportando há décadas. Onde estaria a tal evolução do cinema nacional? Anselmo Duarte, Beto Brant e até José Mojica podem responder. 

Nota: 6

Brasil, coitadinho...

É engraçado como as coisas são no Brasil. Ninguém pode fazer um piadinha com o país que todo mundo começa a choramingar por aí. O último epísódio foi o do Robin Williams. O cara diz que para ganharmos como sede das Olimpíadas em 2016, mandamos 50 strippers e meio quilo de cocaína e o povo ferve em indignação. A imprensa inteira deu notícia. Até o Ratinho, jornalista sério e de credibilidade (Not!), tirou uma. Não sei por qual motivo tanta comoção. O cara é um comediante, tira sarro de tudo. Ele é de Chicago, e se ninguém percebeu, tirou onda até com sua cidade ao falar que mandaram Oprah e a Michelle Obama, manobra que todos criticaram como sendo desesperada para manter Chicago na disputa pelo Jogos. Em seguida fez a brincadeira com o Rio de Janeiro, numa clara autorreferência. Ele mesmo acaba de sair de uma clínica devido ao vício em cocaína. Poderia ter feito piada com qualquer outro tipo de droga, mas preferiu falar sobre cocaína, será porquê? Tanto que David Letterman fala sobre o rehab do ator logo em seguida.

Mas enfim, por aqui é assim. Quando os Simpsons passearam pelo país com seu típico exagero, colocando macacos no Rio e mostrando apresentadoras infantis sexualizadas - se bem que isso não é exagero -, a reação foi quase uma jihad contra a família criada por Matt Groening. Deu em quê mesmo? Nada.

Depois veio o ódio pela porcaria chamada Turistas. O porn torture era tão ruim e tão fora da realidade que ficava difícil imaginar de onde vinha tamanha preocupação pela história de roubo de órgãos que se passava no Brasil. Mas não, legal mesmo é o Hulk na favela arrebentando barracos - se bem que há um cara brasileiro que senta a mão na cara de um controlado Bruce Banner e isso realmente é legal de ver.

Esse tipo de raivinha e patriotismo besta é o mesmo que assistir a Borat e achar que no Cazaquistão deficientes mentais são mantidos em jaulas e o segundo melhor repórter do país é a ignorância com bigode.

Será que alguém, de verdade, achou que Robin Williams realmente quis dizer que o Brasil comprou o Comitê Olímpico Internacional?

Quer saber? Blame Canada!

Resumo da(s) Semana(s) (16 a 29 nov)

Depois de uns dias em São Paulo para o show do AC/DC, hora de voltar à ativa no Cinefilia

 Independence Day (Idem, 1996). De Roland Emmerich

Uma das produções mais divertidas de todos os tempos, responsável por fazer esse blogueiro pirar na Sétima Arte aos (tenros) 12 anos. À época foi um dos maiores feitos dos efeitos visuais e das bilheterias, e apesar das críticas é impossível negar as qualidades desse filme-catástrofe que marcou o tipo de produção que Roland Emmerich faria nos anos seguintes (Godzilla, O Dia Depois de Amanhã, 2012). Ainda que uma idéia ou outra tenha envelhecido, o próprio diretor não conseguiu um filme demolidor tão bom, cheio de carisma e engraçado ao ponto de rirmos mesmo depois que E.T.'s arrebentam metade do planeta - também é duro aguentar a patriotada americana, mas vá lá. Até hoje enche os olhos, além de ter Will Smith metendo a mão na cara dos invasores. Vencedor do Oscar de melhores efeitos visuais. Nota: 8,5

 Eu te Amo, Cara* (I Love You, Man, 2009). De John Hamburg

Filme sem grandes pretenções, mas que faz rir que é uma beleza ao narrar a história de uma amizade masculina, que pode deixar muita gente com o pé atrás à primeira vista, mas vale a espiada. Muito por conta de Paul Rudd, que outra vez prova ser um ator (quase) desperdiçado no meio cômico de Hollywood. É ele o protagonista que vai se casar e percebe que não tem nenhum grande amigo para ser seu padrinho. Aí ele sai à caça de uma amizade para completar seu, ao que parece, perfeito convívio social. Encontra Jason Segel, que aqui faz um cara sem qualquer preocupação séria a não ser curtir a vida. Ambos fãs de Rush (a banda), daí surge uma amizade que segue inteligentemente os clichês das comédias românticas numa subversão que colocará os amigos em conflitos típicos daquele sub-gênero. É leve, diverte e tem bons atores. Quer mais o quê? Nota: 8

* Filme visto pela primeira vez

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