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Crítica: Distrito 9

Pense bem e responda, quantas ficções científicas de peso surgiram nos últimos 10 anos? Seja sincero e vai perceber que de 1999 para cá, apenas Matrix causou alguma comoção real e não apenas uma ou outra promessa que não passou de poucos elogios fáceis. Pois o final dessa década também tem seu próprio produto de discussão: Distrito 9 (District 9, EUA/Nova Zelândia, 2009).

 

De acordo com o manual das boas ficções, não basta ser espacial ou ter tecnologia de ponta, tem que tratar da psiquê humana, falar do homem indo além dele, analisando-o  por outro ângulo que não seja o seu. Pois D-9 fala de tudo isso e, incrivelmente, consegue ser um filme palatável para as grandes platéias – alguém ainda voltou a lembrar de Matrix?

 

Tudo bem que na última década houve sim filmes corajosos, que propuseram temas espinhosos, a exemplo de A.I. – Inteligência Artificial, porém a película que uniu Steven Spielberg e as idéias de Stanley Kubrick passou muito longe da unanimidade, mesmo sendo um filmaço. Acabou no limbo. De onde a nova produção de Peter Jackson, com direção do novato Neil Blomkamp, consegue escapar ao misturar crítica social, extraterrestres, ótimos efeitos visuais e identidade.

A crítica social surge quando uma nave alienígena simplesmente pára sobre Joanesburgo, na África do Sul, num evento sem precedentes na humanidade. Lá dentro, cerca 1 milhão de extraterrestres estão doentes e famintos, não oferecendo qualquer hostilidade aos humanos. Dali eles são retirados e postos num campo para que possam, ao mesmo tempo, serem estudados e tratados. O problema é que depois de anos vivendo ali, o campo que abriga os ET’s se transforma numa verdadeira favela, violenta e segregada pelos vizinhos humanos, os quais não estão contentes com a presença interplanetária.

 

Claramente inspirado pelo que viveu durante os anos do Apartheid – ainda que negue! -, o sul-africano Bolomkamp criou o projeto baseado num curta-metragem que filmou anos atrás e pelo qual foi muito elogiado. Tanto que iria pilotar a adaptar o jogo Halo para os cinemas, o que acabou não vingando. Entretanto, o mundo dos blockbusters tem dessas, ele saiu da adaptação e acabou filmando um dos longas mais ambiciosos de 2009. Se deu muito bem ao imprimir um tom documental a D-9 e, aos poucos, tomando a narrativa em sua mão para criar um terço final apoteótico, no qual a ação é a dona da cena sem se esquecer do que construiu até aquele ponto.

 

Aliás, se tudo vai tão bem, muito é por conta da atuação e do background dado ao protagonista Wikus Van De Merwe, vivido com naturalidade por Sharlto Copley, ator não profissional. Ele é um fraco, que só está onde está na chamada União Multinacional – analogia direta a ONU – por se o genro do chefe da organização. Idiota e presunçoso, ele se torna quase uma figura trágica durante a trama e nem assim é capaz de mostrar certo altruísmo num momento culminante da história. Um verdadeiro símbolo do egoísmo da raça humana.

 

Há filmes que você acaba de ver e o máximo que consegue dizer é “Legal!”, mas sem como se aprofundar no que lhe foi posto. Tente fazer isso com Distrito 9.

 

Nota: 9

Resumo da Semana (2 a 8 nov)

 Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto* (Before the Devil Knows You're Dead, 2007). De Sidney Lumet

Apesar do título curioso e do tema (assalto que dá errado) apontarem para uma trama cheia de adrenalina, o veteraníssimo Sidney Lumet (hoje com 85 anos) cria um drama familiar pungente e mau, além de desenvolver seus personagens no limiar do perdão e da culpa máxima. Com muita ajuda de seus protagonistas, claro, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke. Eles são os irmão que planejam um assalato desastroso à joalheria da família. Cada um tem seus motivos: o perdedor vivido por Hawke realmente precisa de dinheiro, já o amargo Seymour Hoffman finge que quer o vil metal, quando na realidade pretende se vingar do pai distante. Enquanto isso, ambos tentam dar um jeito em seus relacionamentos, atuais e passados. Apesar do filme destinar espaço menor a seus coadjuvantes, vale lembrar da ótima atuação de Albert Finney, dono de uma das cenas que mais incomodam no filmelonga, e olha que a produção tem várias. Já Marisa Tomei está linda, mas só. Enfim, trabalho que ainda conta com uma história quebrada, cheia de avanços e retrocessos, que criam tensão e expectativa para um final angustiante. Nota: 8,5

* Filme visto pela primeira vez

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