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No que poderia ser só mais uma armação do Coringa, muita gente viu com surpresa "Batman - O Cavaleiro das Trevas" alcançar, em menos de uma semana, o primeiro lugar no Top 250 do site IMDb.com, maior banco de dados sobre cinema da Internet.

Esse blogueiro que vos escreve percebeu isso na quarta-feira (23) enquanto buscava algumas informações sobre o novo longa-metragem do Homem-Morcego. Tomado o primeiro susto, esperei alguns dias para ver se não era apenas uma comoção inicial de fãs do personagem e também do finado ator Heath Ledger. Não que hoje essa posição possa ser considerada consolidada, mas no próprio site há uma discussão ocorrendo sobre o fato.

"O Cavaleiro das Trevas" deixou para trás películas de peso como "Um Sonho de Liberdade""O Poderoso Chefão I e II" e "Três Homens em Conflito", exemplos que vinham disputando as primeiras cinco colocações há um bom tempo. Na página do Top 250 há a fórmula usada pelos responsáveis do IMDb, a qual não leva em conta só a nota data pelos usuários - outras variáveis são um número mínimo de votos para entrar no ranking e quantas avaliações individuais a produção conseguiu.

Acompanho o site há uns dois anos e meio e nunca vi algo do tipo acontecer. O filme mais próximo dessa marca foi "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei", em 2003, mas que hoje ocupa a 14º colocação. "Wall-E" foi outro que surpreendeu, mas um mês depois de sua estréia ocupa o 25º lugar na lista.

A nota média conseguida pelo filme de Christopher Nolan é 9,3 - dois décimos a mais que o segundo e terceiro colocados.

Crítica: Batman - O Cavaleiro das Trevas

Tire a máscara de orelhas pontudas e a capa: Batman se torna apenas um ser perturbado com desejo de vingança em relação à criminalidade que assola sua cidade. Agora no processo inverso, colocando toda a fantasia mais a tecnologia de ponta disponível para a maior conta bancária de Gotham, tem-se uma “inspiração” para que tipos igualmente estranhos venham a bater de frente ao dito herói. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, EUA, 2008) esses dois pólos colidem-se e passam por questionamento todo o tempo.

 

O roteiro do também diretor Christopher Nolan e seu irmão Jonathan, a partir do argumento de David S. Goyer, finca tão bem os pés no tangível, que seria possível até mesmo pôr em cheque o fato de um homem vestir uma fantasia para fazer justiça. Contudo, da forma como as coisas são montadas e a base dada pelo antecessor, “Batman Begins”, certo grau de desajuste é deixado claro na figura do herói, muito além, por exemplo, do simples fato de esconder sua verdadeira identidade por trás da máscara. O Homem-Morcego não é um herói bacana como Peter Parker, sua figura é muito mais pesada, ele escolheu ser uma sombra muito mais densa que a “maldição” de Hulk. É um herói que não ganha super-poderes em um acidente qualquer, mas que perdeu os pais quando ainda era criança pelo crime que pretende combater.

 

Por tudo isso, suas atitudes são mais radicais, o que lhe contrapõe não só com o submundo, mas também com aqueles que estão do lado da Lei. Caso do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), homem absolutamente incorruptível, o qual pretende botar a máfia de Gotham atrás das grades, sempre à luz do que dita um código penal. Bruce Wayne (Christian Bale) vê nele a pessoa que Batman não pode ser, com o respaldo que a sociedade não lhe dá quando veste sua capa. Será o trabalho conjunto entre eles, reforçado pelo Tenente Gordon (Gary Oldman) e Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), que irá despertar a fúria dos principais criminosos da cidade e dará a brecha necessária para o surgimento de um novo tipo de vilão.

Esse tipo é o antológico Coringa criado em “O Cavaleiro das Trevas”. Ele não é um criminoso comum, a maquiagem em seu rosto prova isso, seus métodos são muito mais ardilosos que os de qualquer mafioso truculento e sua motivação é algo a ser discutido durante horas apenas para descobrir que não há um resposta para o simples “porquê?”. “Esta cidade precisa de uma classe melhor de criminosos, e eu vou dar a ela”, ele apunhala. A atuação criticamente insana de Heath Ledger faz do personagem ainda mais maligno, mais ameaçador. Redundante dizer que esta é a performance de sua vida, findada em janeiro desse ano. É incrível como ele desaparece no Coringa, e não se trata da tinta branca em sua cara, mas de suas cicatrizes, dos trejeitos, da voz anasalada, na tensão que transmite, no caos milimetricamente pensado por ele. Realmente não é à toa a precoce campanha pró-Oscar a Ledger.

 

Num jogo em que tragédia, heroísmo e loucura se misturam criando áreas cinza sobre si, não há vilões absolutos que não encontrem reflexos naqueles que, em tese, estariam no lado oposto ao seu. Da mesma forma que o conceito de herói só é absoluto a partir do momento em que verdades são escondidas ou mentiras, criadas. Quando Coringa diz a Batman que eles se completam, fecha o conceito criado em mais de duas horas de um filme mau, porém, esperançoso. Tão contraditório quanto dar a sociedade um herói empurrado à insanidade e que comete crimes em nome do bem.

 

Nota: 9,5

Além 38

O robô complexo da Pixar também vai ao Cinema e Vídeo.

Resumo da Semana (14 a 20 jun)

Filmes que não passam da média, às vezes, podem ser relevantes.

"O Reino"* (The Kingdom, 2007). De Peter Berg

É verdade que aqui você não vai encontrar um roteiro que reinventa a roda - ao contrário, há até certo preconceito e oportunismo. Mas também não deixa de ser verdade que o filme de Berg está alguns degraus acima de muito filme político de ação. Fazendo um resumo fanstástico da história que envolve o terrorismo e criando uma sequência horrorizante nos seus minutos inciais, o longa já deixa claro que busca ser mais complexo do que se imagina. Ainda que a ação norte-americana que acompanhamos seja mais um exemplo de como eles acham que podem violar a soberania de qualquer nação, o final da fita mostra que nem sempre os "mocinhos" são tão diferentes dos "bandidos". Nota: 7,5

* Filme visto pela primeira vez

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