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Crítica: Fim dos Tempos

Viver sob sua própria sombra deve ser algo tão desagradável quanto ser comparado a outra pessoa. O diretor e roteirista indiano M. Night Shyamalan foi a grande revelação de 1999 com seu drama/terror “O Sexto Sentido”, indicado ao Oscar tanto pela direção quanto pelo roteiro, faturou alto nas bilheterias e influenciou enormemente as produções do gênero. Contudo, nenhuma de suas fitas seguintes conseguiu chegar perto do sucesso daquele longa - mesmo contando instigantes histórias. Para piorar, há dois anos, em “A Dama na Água”, o cineasta teve sérios problemas com seu antigo estúdio, a Disney, e acabou se debandando para Warner, que viu sua investida naufragar (com trocadilho) num filme confuso e arrogante.

 

Eis que “Fim dos Tempos” (The Happening, EUA, 2008) surge como tentativa de reerguer a carreira de Shyamalan. A proposta era boa: fazer a produção mais violenta do diretor, num roteiro sério que homenagearia filmes sobre catástrofes globais. O resultado, todavia, ficou bem aquém do que poderia se chamar de uma volta por cima. Não que “Fim dos Tempos” seja uma besteira tão grande quanto o filme anterior do cineasta, contudo a coisa não funciona muito bem do meio para o seu final bobo e forçado.

 

Tudo começa no Central Park de Nova York. Em meio a um papo absolutamente comum entre duas amigas, uma delas desata a se repetir insistentemente antes de furar seu próprio pescoço com um palito de cabelo. Logo mais à frente, trabalhadores de uma construção presenciam algo insólito, uma chuva de operários suicidas vem do alto do prédio. Então a história passa a acompanhar o professor Elliot (Mark Wahlberg) e sua esposa Alma (Zooey Deschanel), que passam por uma crise em seu casamento. Eles guiarão a platéia em meio a acontecimentos bizarros e que parecem irracionais, mas que encontram uma explicação ligada às causas ambientais que tanto preocupam o mundo hoje em dia. E aí está um dos problemas do roteiro, tentar explicar o inexplicável. Quando Shyamalan se mete a racionalizar aqueles eventos, não convence e se esquece de uma das boas lições que filmes sobre mistérios tão grandes: para que explicar se você pode simplesmente deixar quem o assiste ainda mais curioso sem dizê-lo o que está acontecendo de verdade?

Mas essa é só uma das pedras no sapato de “Fim dos Tempos”. Seu elenco é outro ponto fraco. Mark Wahlberg, por exemplo, nunca esteve tão artificial, com dificuldade em pôr veracidade até em frases simples como “Eu? Não!”. Zooey Deschanel, se não está tão ruim, chama mais a atenção pela beleza do que pela flexão de suas falas. E como não poderia faltar num filme de Shyamalan, o papel infantil destaque da vez fica para a fraquinha Ashlyn Sanchez, filha de John Leguizamo na trama. Ele, aliás, é o único que parece escapar da praga que se abate sobre o cast, tirando leite de pedra ao transformar seu apagado personagem em alguém que parece real.

 

Outro fator que aponta a nuvem negra sobre a cabeça do diretor é a escassez da elegância de outrora, que sempre o marcou. A exceção é a seqüência na construção logo no início da película - nada a seguir lembra os belos planos vistos em “Corpo Fechado” ou em “A Vila”. Assim como a originalidade de suas histórias vem cedendo cada vez mais espaço para um monte de clichês e lugares comuns. Os minutos finais dessa vez resumem-se a uma porção de cenas adocicadas demais, com direito à última seqüência em aberto para uma continuação - que não deve existir, o que torna tudo ainda mais dispensável.

 

Poucos roteiristas conseguem fazer o que Shyamalan costuma criar, que é fincar os pés na realidade e mesmo assim dar vida a temas fantásticos. No caso de “Fim dos Tempos” enquanto há segredo o impacto é desnorteante, a partir do momento em que as cartas são abertas, o negócio fica meio sem rumo. Se em “A Dama na Água” praticamente todo o trabalho foi perdido, aqui, pelo menos a primeira hora é digna da “grife” M. Night, depois é coisa de brechó.

 

Nota 5,5

Posteridade

Rob Zombie foi se meter a refazer "Halloween", essa não é a praia dele. Tentou entrar para o time dos figurões da indústria do cinema e recebeu em troca muitas críticas. Não vi o filme, mas espero muito de seu próximo trabalho, "Tyrannosaurus Rex", que só pelo cartaz já dá pra perceber que suas melhores características - vistas em "Rejeitados pelo Diabo" e "A Casa dos 1000 Corpos" - estarão de volta.

A podreira começa pelo visual do pôster, um tanto pscicodélico, outro tanto apocalíptico e, acima de tudo, sujo. Sobre o que se trata o longa? Ninguém sabe, mas dos 100% que Zombie irá trazer, ela já adianta: 51% motherfucker, 49% son of a bitch.

Não haveria outro para o Posteridade da vez.


Comentários de Última Hora: Não sei se vocês concordam, mas aposto uma cerveja que a loirinha aí de cima é a esposa de Rob, Sheri Moon.

Convidados a votar

O que a roteirista Diablo Cody, o ator Sacha Baron Cohen, a atriz Marion Cotillard, o compositor Michael Giacchino e o diretor brasileiro Walter Salles têm em comum? Não, não se trata de um projeto que irá juntá-los. É que eles estão entre os 105 profissionais do cinema que foram convidados pela Academia a votarem no Oscar a partir desse ano.

Se Salles aceitar o convite, figurará entre Sônia Braga, Bruno Barreto e Fernanda Montenegro, três dos brasileiros com direito a voto no prêmio.

Entre os convidados ainda estão Judd Aptow, Jet Li, Michael Haneke e David Benioff.

Resumo da Semana (16 a 22 jun)

Um que valeu por muitos

"Mar Adentro"* (Idem, 2004). De Alejandro Amenábar

Um filme que te emociona durante quase todo o tempo, de maneira sincera, vale a pena pena ser julgado? Mas claro! Se ele mexeu com seus sentimentos de forma real, e não apelando para golpes baixos, vale uma análise daquilo que te tocou tanto. Nesse caso, o diretor Amenábar, junto a seu atores, constrói uma fita que vai além da tristeza em si e deixa claro que sua motivação não é o chororô e sim mostrar uma história humana, cujos sentimentos transbordam da tela. Javier Bardem na pele do tetraplégico Ramón, tem como maior sonho o de deixar a vida e se jogar à morte, mostrando que pena é a última coisa que ele quer que sintam. Para isso, transparece serenidade e inteligência em suas declarações. O restante do elenco também está primoroso e o trabalho de Amenábar é nada mais que irretocável. Nota: 9,5

* Filme visto pela primeira vez

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