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Crítica: Speed Racer

Partindo de "Matrix", de 1999, Andy e Larry Wachowski criaram um mundo só seu, cheio de referências históricas, filosóficas, míticas e inspirado em animações japonesas (animes ou animês) como "Fantasma do Futuro" - ou "Ghost in the Shell". Ninguém poderia prever o impacto da fita na cultura mundial, mas o sucesso veio. Assim, o estilo foi copiado, reciclado e esgotado, até mesmo pelos seus criadores, que armaram duas continuações megalomaníacas sem a força do original, mas cheias de efeitos visuais ultramodernos e seqüências de ação mirabolantes. Houve quem dissesse que dali os irmãos não passariam. O que se seguiu desmentiu tal teoria. Eles produziram e roteirizaram (bem) a adaptação de "V de Vingança", graphic novel que muitos duvidaram que poderia obter êxito nos cinemas, e agora chegam aos cinemas com "Speed Racer" (Idem, EUA, 2008).

 

Se há algo que não se pode dizer dos Wachowski é que lhes falta peito para tocar projetos ambiciosos. E também que não lhes sobra forma. A transposição do anime criado por Tatsuo Yoshida na década de 1960 é uma festa para os olhos e ouvidos sem deixar de ter fluidez em seu enredo. Da primeira à última cena do filme há música, movimentação e saturação de cores. O melhor de tudo: em poucos minutos você já está acostumado com o estilo exagerado imprimido na tela. Se as corridas são absurdas em suas primeiras tomadas ou o ambiente é "alegre" em demasia, não tarda para que as piruetas dos carros e as malandragens dignas de um Dic Vigarista dos corredores se tornem apenas divertidos elementos de cena.

 

Contudo é preciso ter a mente aberta para curtir "Speed Racer", pois ao mesmo tempo em que estimula ao máximo os sentidos, a fita não deixa para trás seu roteiro, cheio de flashbacks e flashforwards, que conta de maneira muito esperta a história do garoto Speed (Emile Hirsch), um absoluto aficionado por corridas, que vê em seu irmão piloto, Rex (Scott Porter), a figura de um herói. É na emocionante cena de abertura que se descobre, aos poucos, o triste fim dele enquanto o personagem-título, já adulto, prepara-se para atingir o recorde de seu maior ídolo. Desde aí, Andy e Larry mostram a desenvoltura que poderá ser conferida durante os 135 minutos do filme. Ao fazer o paralelo entre a volta de Speed e sua história junto à de seu irmão, os diretores ainda conseguem uma rima com a imagem-fantasma do carro de Rex. Em meio a tanta correria, assistir ao garoto vendo seu irmão correr contíguo a si aproxima-se do lirismo.

A verve família da adaptação já fica estabelecida aí, o que ajuda bastante a entender a ligação do protagonista com a equipe de automobilismo que seu pai construiu. Com o passar do tempo esse laço será ressaltado, ao colocar todo o núcleo familiar de Speed em esforços para que suas vitórias aconteçam.

 

Se ambos, efeitos visuais e enredo, são pontos positivos do longa, o elenco tem grande parcela de responsabilidade no sucesso de "Speed Racer", já que suas atuações, quase que todo o tempo, tinham como elementos reais apenas as pessoas com quem contracenavam. E aí o maior destaque fica por conta de Paulie Litt, o Gorducho, membro mais jovem da família. Ao lado do chimpanzé Zequinha - outro achado, já que não se explora em excesso suas gracinhas -, ele é dono das cenas mais divertidas e carismáticas. Emile Hirsch segura bem o papel central, encontrando nos olhos extremamente expressivos de Christina Ricci a parceira ideal. O que poderia ser sobra de atenção, entretanto, é transformado em escada por John Goodman e Susan Sarandon, que mostram serviço injetando um extra como os pais de Hirsch. Até o misterioso Corredor X vivido por Matthew Fox consegue seu espaço.

 

O tempo de cena do filme, todavia, é seu maior problema - talvez 10 ou 20 minutos a menos fizesse bem a seu ritmo. Pecadilho se for ponderado junto à ambição dos Wachowski em fazer um filme extremamente fiel ao espírito dos desenhos animados, que ainda sim traz muito aos adultos que forem acompanhar os filhos nos cinemas.

 

Nota: 8

Preguiça

O blog da Redação do G1 divulgou, hoje, que "Ensaio Sobre a Cegueira", de Fernando Meirelles, está em penúltimo lugar na enquete realizada pela Screen sobre os filmes em competição em Cannes, ganhando apenas de uma fita filipina chamada "Serbis". Daí vem um babaca e comenta: "hahahahahahahahahahaha... depois dizem que o cinema nacional está evoluindo!!!!!"

Primeiro, o filme não é (só) brasileiro, é uma produção conjunta entre Canadá, Brasil e Japão. Mas tomemos o cometário em si, que reduz tudo ao preconceito contra cineastas brasileiros. Fico numa preguiça de gente com essa mentalidade idiota sobre o cinema nacional. Será que algum dia um tipo desse já pensou que cinema é mais que nomes estrangeiros? Talvez ele nunca vá saber o que é assistir a um filme e não ter um balde de pipoca ao lado para acompanhar as explosões gratuitas de qualquer coisa de um Miachel Bay da vida.

O bom é que há pouco meses "Tropa de Elite" foi malhado em Berlim e saiu de lá com o Urso de Ouro. É bem provável que o bonitão do comentário acima ainda nem tenha se dado conta de que o Capitão Nascimento não é um herói.

Tin2

A adaptação de "TinTin" para as grandes telas vai tomando corpo. A trilogia, já se sabe, terá como diretores dos dois primeiros filmes Steven Spielberg e Peter Jackson, sendo o terceiro longa - cara de espanto on - com os dois encabeçando as filmagens - cara de espanto off. Ao site Stuff.co.nz, Spielberg revelou: "Vou dirigir o primeiro filme, Jackson comanda o segundo. Provavelmente, vamos co-dirigir o terceiro". Será a reunião de mestre e pupilo.

Rumores ainda dizem que Andy Serkis pode vir a ser o Capitãl Haddock, em mais uma colaboração com Jackson. Já com relação a Thomas Sangster (foto) é quase certo que ele protagonize a trilogia.

Resuma da Semana (6 a 18 de mai)

Reprises novamente, em dose dupla. O inédito ficou por conta de "Speed Racer" no cinema.

"Velocidade Máxima" (Speed, 1994). De Jan de Bont

Taí um filme que vai direto ao ponto. Apresenta personagens, cria intimidade entre eles e a platéia, enquanto começa a descer a ripa, com uma cena de ação atrás da outra. Fica claro o objetivo do filme: entreter sem levar as coisas muito a sério. Keanu Reeves e Sandra Bullock têm química e o diretor Jan de Bont está inspirado. Vale a emoção e os exageros. Nota: 8

"Juno" (Idem, 2007). De Jason Reitman

Roteiro inteligente, rápido e cheio de boas sacadas. Direção precisa, contida e também muito esperta. Atores inspirados e protagonista charmosa. Trilha sonora em sintonia com os movimentos do enredo e um final simples, porém pungente. "Juno" é daqueles longas de lavar a alma, seja pelo seu bom-humor incrível, seja pelo seu sentimentalismo digno de sua personagem-título adolescente. Toca num tema espinhoso na realidade - a gravidez de uma jovem de 16 anos - sem se tornar panfletário ou melodramático. Nota: 8,5

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