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Crítica: O Caçador de Pipas

            A mistura de forte drama e certa comicidade, emoldurada pela simplicidade de suas histórias é, grosso modo, uma maneira de definir os filmes iranianos que conquistaram o público ocidental. Com a abertura do Afeganistão após a invasão norte-americana em 2001, relatos  sobre o país foram motivo de grande curiosidade em todo mundo. Fechados para o resto do planeta desde que os talibãs subiram ao poder, com a derrocada do regime, o universo literário foi invadido por sucessos como “O Livreiro de Cabul”, cujo enredo traz as impressões da jornalista norueguesa Asne Seierstade sobre aquela cultura, refletida no livreiro do título.

 

            “O Caçador de Pipas” (The Kite Runner, EUA, 2007) junta em sua estrutura, basicamente, aqueles dois elementos: narrativa em estilo iraniana e um best-seller como inspiração. O filme é baseado no rmance homônimo de Khaled Hosseini, uma das primeiras e mais famosas histórias envolvendo o Afeganistão do recente boom literário. Muito por isso, a emocionante narração tende a ficar bastante incômoda – no sentido ruim da palavra - quando foge de sua proposta inicial. 

            Final da década de 1970, Amir e Hassam são grandes amigos. O primeiro é uma promessa da literatura enquanto o outro é filho do mais antigo empregado do pai de Amir. Ao que parece, tal diferença de classe não é algo relevante na relação e os primeiros minutos da fita estabelecem essa proximidade dos dois. Espertos numa disputa de pipas, o momento-chave na vida dos jovens vem logo depois de um campeonato no qual o último a manter sua pipa no ar vence. Ao ganharem a disputa entre inúmeros garotos, Hassam corre para pegar o brinquedo dos últimos concorrentes como troféu. É quando um outro grupo de meninos mais velhos estupra o garoto. Amir assiste a tudo sem esboçar qualquer reação. Daí pra frente, o misto de culpa e impossibilidade de mudar o passado faz com que o jovem escritor se afaste de maneira quase incompreensível do amigo, até o dia em que, com a invasão soviética, ele e seu pai fogem do Afeganistão para os Estados Unidos.

            O tom que perdura durante toda a história é de amargor pelo passado. De resto, tudo segue de maneira muito simples, cativante e melancólico. Os personagens desfilam pela tela com todos os defeitos, seguindo suas vidas. É possível aqui, salientar que o Baba interpretado por Homayoun Ershadi torna-se nessa segunda parte, de longe, o melhor de “O Caçador de Pipas”.

 

            O diretor Marc Forster “esconde-se” com poucos invencionismos de edição ou em suas movimentações de câmera, guardando, muito acertadamante, para que as imagens das pipas sejam seu único momento de ousadia técnica, ao mostrar o vôo daqueles objetos.

 

            No momento em que a trama tem uma reviravolta, já no terceiro ato, é que o “Caçador” perde em ritmo e contato com a realidade. Partindo da emocionante leitura de uma carta de Hassam, Amir, já adulto e estabelecido como autor, volta para sua terra-natal, sob o comando talibã. Lá o roteiro de David Benioff – que trabalhou com Foster em “A Passagem” – perde a grande oportunidade de retratar o país tão bem quanto em sua primeira parte ao seguir por uma busca que tem o gosto de outras produções tipicamente hollywoodianas com mistério e uma dose de ação desnecessária, sem conseguir imprimir tensão alguma.

 

             As duas ou três últimas seqüências finais, nesse contexto, servem muito para redimir os minutos que as antecederam, voltando o drama para os trilhos - a frase que fecha o filme é especialmente emocionante.

 

             Nota: 8

Pacino e a espionagem

O 22º filme de James Bond quer mesmo ser um acontecimento. "Quantum of Solace", como foi recentemente batizado, já tinha nomes importantes do cinema atual como o do diretor Marc Forster ("Em Busca da Terra do Nunca") e do roteirista Paul Haggis ("Crash - No Limite"), agora, além de manter o bem sucedido Daniel Craig como o espião, entra para o elenco de astros ninguém menos que Al Pacino. De acordo com o anúncio feito pela imprensa da Inglaterra, o veterano ator fará uma pequena mas importante participação no trabalho. Dizem que a empolgação é grande nos sets.

Crítica: Desejo e Reparação

            A Academia sempre foi apaixonada por dramas de época, entregando várias de suas estatuetas aos envolvidos em filmes do gênero. Com suas sete indicações ao Oscar, “Desejo e Reparação” (Atonement, Inglaterra/França, 2007), contraditoriamente, não deverá sair do Kodak Theater no dia 24 de fevereiro com um número expressivo de prêmios, mas isso se deve mais à qualidade de seus concorrentes que pela sua inferioridade.

 

            Nos últimos anos, o Oscar vem se tornando, lentamente, um pouco mais arejado, com a substituição natural de vários de seus votantes mais idosos, o que faz com que diretores como Paul Thomas Anderson e os Irmãos Coen briguem mais fortemente para terem o Melhor Filme do ano. Mas tal abertura também resulta no reconhecimento da Academia à falta de reverência do diretor Joe Wright aos clichês e certa apatia dos dramas sisudos de outrora. Assim, “Desejo e Reparação”, com sua trama envolvente e cheia de energia, é guiado por um novo tipo de drama, que sabe ser sério sem precisar se curvar a fórmulas.

 

            Dessa forma, a trágica história que envolve a jovem escritora Briony, sua irmã Cecília e o rapaz Robbie tem a beleza estética de qualquer outro longa de época, mas traz uma força que não é vista na tela através de correrias, e sim, com apreensão e culpa. Apreensão em acompanhar o destino dos três depois que Briony, no auge de sua imaturidade e paixão adolescente, vê mais do que gostaria ou sabe. Culpa pelo filme dividir com a platéia todo o sentimento de tristeza da garota depois que Robbie vai parar em meio às explosões da 2º Grande Guerra e sua irmã se afasta dela.

            Impulsionado pela trilha sonora majestosa, somada à edição impecável, a história segue com pequenos saltos no tempo tanto para trás quanto à frente, formando um quebra-cabeça melancólico e ao mesmo tempo belíssimo. Wright não faz por menos em seu trabalho, o que resulta em pelo menos dois momentos geniais. O primeiro se passa ainda na casa das garotas, quando a mais jovem adentra a biblioteca e a luz que lhe ofusca, aos poucos, revela uma imagem perturbadora para seus 13 anos. A segunda está na decisiva cena da retirada em Dunquerque, quando um grande plano-seqüência demonstra a maestria do diretor. Sua câmera passa por soldados bêbados, um coral que se funde à trilha, bares e ao mesmo tempo capta a dor de Robbie, no momento que poderia valer a indicação ao Oscar que lhe foi negada.

 

            Até esse ponto, “Desejo e Reparação” já tem quem o assiste nas mãos. Seu desfecho, então, dá o golpe final misturando originalidade, dor e alegria. O roteiro magistral adaptado do livro de Ian McEwan, assim, consegue dois efeitos convergentes: arrancar a última lágrima de quem o vinha acompanhando ou fazer com que elas apareçam naqueles que ainda não esperavam ter de levar um lenço para o cinema. E o melhor, tais resultados surgem de maneira natural.

 

            Nota: 9

"Tropa" invade Berlim

Talvez a frase mais marcante sobre a exibição do filme brasileiro "Tropa de Elite" no Festival de Berlim tenha sido a da revista alemã Der Tagesspiegel. Segundo o veículo, o filme de José Padilha não é fascista, como foi classificado por noticiosos como a conceituada Variety, ressaltando que "nisso (fascismo), como você sabe, somos especialistas".

"Tropa" muito provavelmente não levará o Urso de Ouro que disputa na Alemanha, mas abre caminho para sua carreira internacional que pode culminar no Oscar do ano que vem. O filme vem sendo muito debatido e foi prejudicado em sua exibição ao não ter uma cópia em língua original e legendas em inglês para ser mostrada para a imprensa. Os críticos viram o longa legendado em alemão e tradução simultânea, sendo que em inglês era uma mulher a responsável em levar os fortes diálogos do Capitão Nascimento aos ouvidos da platéia.

Resumo da Semana (4 a 10 de fev)

Bons números novamente, na semana que antecede a volta às aulas na faculdade. No cinema foram conferidos "Desejo e Reparação" e "O Caçador de Pipas", críticas nos próximos dias.

"Nação Fast Food"* (Fast Food Nation, 2006). De Richard Linklater

Linklater vem trabalhando muito nos últimos sete anos, quando lançou oito filmes, tendo boa visibilidade em quase todos eles. Apesar de "Nação Fast Food" estar longe de trabalhos como "Antes do Pôr-do-Sol" (2004), ele trata da questão das cadeias de fast food, uma mania de nossos tempos, e todo o podre que as envolve, indo além do colesterol de seus sanduíches. Peca por alguns discursos simplistas e/ou inocentes - a participação de Avril Lavigne como jovem engajada mina as intenções do diretor naquele núcleo - e por não desenrolar de maneira mais cadenciada as várias histórias que compõem seu roteiro, mas ainda vale muito a pena. Nota: 7,5

"Meu Tio Matou um Cara" (Idem, 2004). De Jorge Furtado

Se tem alguém no Brasil que sabe diluir em histórias juvenis preocupações reais, esse é Jorge Furtado. Aqui, mais uma vez, ele traz personagens que tem seus tons cinzas e desenvolve uma trama abslutamente divertida com atores de primeiríssima. Muito acima da média. Nota: 8

"Eu, Eu Mesmo e Irene" (Me, Myself and Irene). De Peter e Bobby Farrelly

Digamos que esse foi um dos últimos suspiros de originalidade dos Farrelly, chegando ao fundo do poço com o sem-graça "Antes Só do que Mal Casado". Aqui eles ainda tinham Jim Carrey e Renée Zellweger inspirados e piadas realmente boas. Vindos do grande sucesso de "Quem Vai Ficar com Mary?", a partir dali o único longa digno de nota foi "Ligado em Você", de 2003 - que no fim das contas também não é lá uma maravilha. Nota: 7,5

"O Invisível"* (The Insivible, 2007). De David S. Goyer

Numa definição rápida e rasteira, aqui você terá um "Ghost" em que o fantasma não faz nada além de observar tudo o que acontece em relação ao seu caso. Aliás, o filme é uma forçação de barra só. Digamos que alguém pode sobreviver a três dias depois de uma surra homérica enquanto seu corpo é deixado nos lugares mais insalubres possíveis. O roteiro não tem o que contar e ficamos esperando assistir a alguma coisa até o filme acabar. Frustrante. Nota: 3

* Filme visto pela primeira vez

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