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Além 18

João Estrella também toma conta do Cinema e Vídeo.

Crítica: O Gângster

           Cinebiografias de criminosos sempre chamam a atenção do público. Por mais que o filme seja tendencioso ou raso, saber como é a obscura vida de traficantes, assassinos seriais ou grandes estelionatários deixa qualquer um curioso. Talvez por isso há tantas fitas  bem sucedidas desse tipo de dramatização. Só a título de exemplo, há em andamento três produções sobre o mega-traficante colombiano Pablo Escobar, morto em 1993. “O Gângster” (American Gangster, EUA, 2007) é mais uma dessas biografias, ou melhor, não é mais uma, mas sim um belo exemplar do sub-gênero e além.

 

            Diferentemente do criador do Cartel de Medellín, o personagem principal do longa-metragem de Ridley Scott, o ex-mafioso Frank Lucas ainda está vivo e hoje vive na pobreza após os eventos contatos pelo diretor nesse novo trabalho. Aliás, um trabalho digno de nota pela abordagem certeira da ascensão de Lucas no mundo do crime. Ele era o braço direito de Bumpy Johnson, homem forte do Harlem até sua morte, quando Frank começa a montar seu próprio negócio, partindo da sombra do ex-patrão e sobressaindo-se até mesmo sobre a máfia italiana em Nova Iorque. Seu estilo discreto e a forma como consegue a heroína que revende nas ruas da cidade, o faz prosperar enormemente no ramo. A tática era conseguir um produto duas vezes mais puro e vender com preço mais baixo que o de qualquer outro traficante. Para isso foi montado um esquema que envolvia soldados na Tailândia durante a Guerra do Vietnã.

           

            Vivido de maneira fabulosa por Denzel Washington, logo Frank Lucas acha alguém tão obstinado quanto ele, só que do outro lado da lei. Certo, o caminho do policial Richie Roberts não é tão fácil assim no encalço do traficante e a interpretação de Russel Crowe tem a intensidade necessária para que a platéia seja convencida que em certa hora um vilão tão forte venha a passar maus bocados pela investigação do homem da lei.

            Por falar nisso, intensidade é o que não falta aos mais de 150 minutos de “O Gângster”. A direção de Scott é bem marcada em um filme que facilmente poderia ser comparado aos vários de Martin Scorsese sobre a máfia ou mesmo ao pai de todos eles, “O Poderoso Chefão”. Não seria mentira dizer que em certos aspectos a trilogia de Francis Ford Copolla seja lembrada – a cena passada na igreja, já no terceiro terço da história, remete ao final do primeiro “Chefão” -, no entanto Scott deixa claro a todos que ali está um legítimo filho seu, no qual a brutalidade das ruas e o amor à família estão contidos em seu protagonista. Aliás, um interessante paralelo entre Lucas e Roberts pode ser feito. Enquanto a família do empresário das drogas é algo extremamente respeitado e valorizado, o policial tem sérios problemas com sua ex-mulher, além de ser um conquistador tão obcecado que mesmo ele admite, a certa altura, que sua casa não é lugar para uma criança. Tudo isso enquanto os dois estão em lados distintos da lei.

 

            O roteiro de Steven Zaillian ainda toca num ponto muito interessante quando fala sobre as grandes empresas. Logo no início, Lucas conversa com Johnson e ele explica como tudo vinha mudando e os pequenos comércios do bairro deram lugar a grandes negócios muito impessoais. O que se vê a seguir é como o pupilo segue os passos das mesmas corporações que vinham tomando o mercado, chegando a criar uma marca para sua heroína. E a mesma frieza das empresas é colocada na maneira como o tráfico, nas proporções do de Lucas, afeta famílias e jovens, enquanto o próprio distribuidor nem se aproxima de sua droga, sabedor de seus efeitos.

 

            Captando os anos de 1970 numa fotografia e direção de arte tão caprichadas quanto a de filmes como “Donnie Brasco”, “O Gângster” reserva momentos de puro esmero visual – as ruas do Harlem, mesmo sujas, são lindamente filmadas -, outros eletrizantes – a invasão ao prédio pela equipe de Roberts mais ao final no filme – e alguns de puro impacto – Lucas mostrando aos irmãos quem manda no lugar ao encontrar um desafeto. A soma de tudo isso garante, como dito, não apenas uma boa biografia, mas uma película que se destaca além de gêneros.

 

             Nota: 8,5

Posteridade

Jason Stathan é o cara em filmes de ação sem noção - vide "Adrenalina" -, mas ele já esteve em várias outras produções que se levam à sério. Normalmente nesses longas ele vem como coadjuvante - vide "Colateral"  -, contudo "The Bank Job" promete trazê-lo na melhor forma não só como brucutu, mas como ator de verdade numa trama que envolve um misterioso assalto real ocorrido na Inglaterra em 1971.

Para realçar o clima no qual o filme se passa, seu pôster vai no melhor estilo "Um Dia de Cão" ou "A Conversação". Produções setentistas que, da mesma forma que "Sob o Domínio do Medo", têm estilo de sobra e marcaram a sétima arte não só com suas histórias mas também na forma como foram representadas nas paredes das salas de cinema pelo mundo. Se "The Bank Job" conseguirá chegar perto da importância daqueles filmes, eu não sei, mas pelo menos seu pôster já está à altura. É ele que estampa o Posteridade da vez.

Além 17

A polêmica sobre "Eu Sou a Lenda" continua no Cinema e Vídeo

Um novo, outro nem tanto

Ontem eu vi dois trailers que curti bastante. O primeiro é do novo suspense de M. Night Shyamalan, o primeiro dele que recebeu classificação para maiores de 17 anos lá nos Estados Unidos. O filme fala sobre acontecimentos estranhos e uma família no meio de tudo tentando se manter viva, ou seja, o de sempre do diretor. Mas como em todos esses anos, desde "O Sexto Sentido", o indiano só errou uma vez, é de se esperar muito de "The Happening". O trailer já é, por sí, um acontecimento.

O outro trailer que vi, foi o de "Hancock". Ele já não é tão novo assim, tem pouco mais de um mês que foi colocado na Internet, porém fiquei surpreso com o bom humor do novo de Will Smith. Depois de salvar a Terra em filmes como "Homens de Preto" e "Independence Day", ele encarna um super-herói de verdade (ou não...). Confiram.

Resumo da Semana (28 jan a 3 fev)

Mais uma semana proveitosa, além dos comentados abaixo, "O Gângster" no cinema.

"A Fantástica Fábrica de Chocolate" (Charlie and the Chocolate Factory, 2005). De Tim Burton

Essa versão de Burton para o clássico de Roald Dahl tem no aspecto visual o grande trunfo. Se comparado à famosa primeira adaptação de 1971, com Gene Wiler, perde muito em relação ao roteiro - dessa vez esticaram muito a história -, mas está à altura em relação à trilha sonora e seus atores. Nota: 8

"Antônia - O Filme"* (Idem, 2006). De Tata Amaral

Igualmente a "O Invasor" e "O Homem do Ano" aqui também é abordado o aspecto da vivência difícil em favelas de grandes cidades. Contudo, em "Antônia" a brutalidade cede certo espaço para um olhar mais feminino e esperançoso que aqueles outros filmes. O tom cru continua, porém de forma mais delicada. Nota: 8

"O Hospedeiro"* (Gwoemul, 2006). De Joon-ho Bong

O cinema sul-coreano vem se mostrando uma das gratas surpresas da década. Depois da trilogia da vingança de Chan-wook Park, "O Hospedeiro" recebeu ótimos elogios pelo mundo, e não por acaso. O filme mistura de forma original comédia, tensão, terror, drama e ação. Tudo é tão pouco convecional que não se sabe exatamente quando rir ou sentir pena dos personagens, atacados por uma criatura gigante saída do rio Han. Nota: 8,5

"Violência Gratuita"* (Funny Games, 1997). De Michael Haneke

Taí outro longa pouco ortodoxo. Brincando com a platéia e fazendo um filme violento apenas em sugestões, Haneke ainda tem tempo de abordar a metalinguagem e sair com um trabalho que trás discussões sobre o que é a violência no cinema e em nosso mundo. Estranho é que mesmo falando da banalizações e afins, Haneke faz uma refilmagem nos Estados Unidos com Naomi Watts e Tim Roth. O detalhe é que, segundo o diretor, não haverá mudança alguma, nem em roteiro, nem em situações ou mesmo nos ângulos de câmera. O motivo do remake ainda não se sabe. Nota: 8,5

* Filme visto pela primeira vez

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